dois-cinco (inspirando), quatro-nove (expirando), sete-meia (inspirando), oito-meia (expirando).Tal era o telefone da casa da lindinha (M.), de onde vinha pedalando. Calma, vou sobreviver.É importante manter a paz e a confiança. Concentra na respiração: inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira... E assim desmaiava outra vez de fraqueza, até que voltei a ouvir ela dizendo: - Tá tudobem, amor. A gente táqui. Vai dar tudo certo. Confesso que a voz da Flor D'Ouro (M.) naquele momento era música soprando à alma.
Ela chegou com Elioni & Norman, pais dela que desde sempre me receberam e cuidaram super bem . Antes disso, os dizeres atenciosos e olhares desesperados do condutor da linha 2016 Mandala-Alvorada procuravam tranquilizar-me (ali era difícil dizer quem estava em estado de choque mais forte). Também havia outra voz suave, da Francilene - a passageira a quem havia dito aquele telefone da nossa casa M. - me falando que haviam chamado a defesa civil para me levarem pro hospital. Nessas idas e vindas de consciência, muitas coisas passavam pela memória. O engraçado é que tais lembraças faziam um estranho sentido peculiar.
Apenas acoradava e desmaiava sucessivamente, pois o sangue jorrava dramaticamente. Então as lições de primeiros-socorros via seriados televisivos ajudou-me a pedir um pano para estancar o sangramento. Aí o motorista Renato arranjou-o (relativamente limpo) até vir o Socorro. Tiraram me o capacete e colocaram o colar imobilizador no pescoço. Por alguma boa-sorte do destino, o médico na ocasião era cirurgião vascular - capaz de pinçar a única veia restante a fim de continuar a irrigação da mão. Naquele instante ignorava tais detalhes, porém faziam toda diferença. Nunca consegui agradecer devidamente esse capitão-bombeiro: Muitíssimo agradecido mesmo. E a voz da linda seguia me amando na parte da frente do Uéééónn-uéééónn-uéééónn.
Próxima parada: Hospital Miguel Couto. Essa parte passou bem rápido, ou teria descordado bastante?? (dêem seus palpites). Mas um detalhe foi passado em branco. Lá no túnel, quando a situação estava melhor, pedi pra ligar pra mi madre - a Mami - cuja recomendação principal (sempre) é volte inteiro do jeito que saiu. O jeito era dizer que o acidente parecia reprise das quedas em Araruama, onde passávamos o verão na época da infância. É claro que isso era um exagero às avessas, mas eu também tinha pouca idéia da gravidade do caso. Voltemos àquele hospital público, localizado na famosa Zona Sul carioca.
Apesar do estrago, me sentia bem. Conseguia mexer, ainda que pouquinho, todos os dedos da mão esquerda. Um grande alívio! Olhando para o teto doMiguel Couto, entre correrias, trocas de maca, entra-e-sais, me sentia seguro e bem tratado naquela hospitalidade*. Era estranho isso, pois muuitas vezes ouvira falar mal dali. Talvez seja relevante o fato de atender a elite sócio-econômica, uma vez que todas remoções devem ser levadas primeiro aos hospitais públicos. Bem, novamente, o que realmente importava é que me sentia melhor: são, lúcido e tranquilo. E tome passeio de maca pra sala de cirurgia. Essa parte é complicado de dizer as coisas...
*historicamente, a Ordem (monásquica-cavaleira) dos Hospitalários era encarregada de abrigar os perigrinos cristãos em viagem à Jerusalém. Tal qual outra famosa Ordem da época medieval, a dos Templários, aquela desempenhava um papel importantíssimo à segurança dos viajntes. Então ao descansar nesses primevos hospitais, as pessoas gozavam da hospitalidade dos mesmos. Bom, foi assim que aprendi. Faz sentido...