sábado, 1 de março de 2008

Luz no fim do túnel (iii)

Sala de cirurgia com equipe médica para limpeza profunda do ferimento - ainda cheio de pedacinhos de asfalto, sujeiras e outras coisas não-identificadas. Pois bem, a médica parecia irmã/prima de colega dos tempos da escola (Centro Educacional da Lagoa). Pergunto-lhe o sobrenome. Não era, mas lembrava bastente. Aindali o ambiente permanecia hospitaleiro :) Era bom saber que a cabeça fora bem protegida pelo capacete, além do que o ferimento grave já estava em boas mãos. E outra sessão de incosciência, embora medicinal desta vez.

Sala de ortopedia. Árvore frondosa na janela, deve ser uma amendoeira - pois parece uma que tinha na esquina lá de casa. Norman me abanando................. Após tantas saídas-entradas de macas (tipo: 1, 2, 3 e VAI!!!), estar situação tão calma era quase um spá. Entre descansos breves e olhadelas pela janela havia muitas pessoas esperandoestando nesse ocal. Um cara que tinha caído de moto do lado direito, com outros homens deitados depois. Na esquerda o corredor e o espaço das mulheres ."Oi amor, que bom que cê táqui. Dá um bejinho;)" Enquanto isso a ventilação abanada pelo Norman parecia incasável. Hora de levantar, grande questão: como será que as pernas estão???Uupá. "Isso, muito bem!", diz ele. Nada como um ombro amigo para nos ajudar dos tombos da vida.

E tome abanando, abanando, abanando. Tava quente. Agora sentado havia um novo panorâma no recinto. Muitas pessoas mais à vista, impressionante quanta gente machucada - umas 50 pessoas naquele lugar com as folhas da amendoeira paradas lá fora sem vento. A fim de passar o tempo conversava com o Norman coisas que já não me lembro. Aí entrou a marinoca - narizinho de picopa - dizendo que dali em diante eu iria ter 16 anos de idade. Era o jeito de conseguir a permissão de visita pros familiares, uma vez que o horário regulamentar havia terminado. Oi foi seu pai que disse? A mami talvez?

O que importa foi a felicidade da mami e o buxexudo aparecerem para me ver. Patrícia (mãe) e Diogo (irmão), são a base daquilo que sou. Este me pediu de presente de cinco anos - "Quero um irmãozinho, todo meus amiguinhos têm irmãozinho. Eu também quero ter um irmãozinho" - ao papi e a ela, que me gestou. Esse Re(i)nato (pai), como ele mesmo brinca, me transmitiu coisas muito importantes: o respeito à opinão dos outros e a não forçar a visão pessoal de mundo aos outros. A tolerância à diferença é um grande legado a mim do papi. Já mami(nha) me mostrou o carinho, a alegria e a honestidade. A confiança na sinceridade é uma de suas características mais belas. E o (topo-)didio, bem, foi o exemplo de pessoa boa em que me inspirei - cuja parcimônia, inteligência e bondade sempre me protegeram.

Voltando ao quente recinto da ortopedia, continuava o Norman a (nadar-)abanar e o moço machucado da moto. Ele tava com edemas muito roxões, apesar da sua entrada fazer algum tempo. Logo a família, com todo mundo tentando ajudar com o possível & inimaginável, conseguiu a transferência. "Boa sorte. Melhoras", disse aos colegas dali. Mas antes de adentrar na Dona Assistência do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), um garoto estava dando entrada na emergência:

NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÕOOOOO.não MééééXEEEEE.PÁRA, PÁÁÁÁRA.AI MEU PÉ!!!!!NÃO QUERO. fala pra não mexer pai. PAI, PAI, PÁÁÁÁI!!! O menino tava urrando de dor com a fratura exposta. Foi bizarramente inesperada e forte essa cena, mexeu comigo. Afinal eu-na-maca pude ser levado à ambulância difícil pacas de ser arranjada. O novo destino era Botafogo, Casa de Saúde Santa Lúcia. Essa nova pousada também foi muito complicada de se conseguir, só que quase todos esses detalhes vitais passavam-me desapercibido. A intenção pessoal era uma: ficar bem e descansar o corpo combalido.